Dicas

domingo, 18 de janeiro de 2009

Dois lobos famintos e um Chapeuzinho Vermelho 20/05/08 por fidel castro














Como não tive preceptor político, a sina e a casualidade foram componentes inseparáveis da minha vida. Adquiri uma ideologia pela minha própria conta desde o instante em que tive uma possibilidade real de observar e meditar a respeito dos anos que vivi como criança, adolescente e jovem estudante. A educação se tornou para mim no instrumento por excelência de uma mudança na época que me coube viver, da qual dependeria a própria sobrevivência da nossa frágil espécie. Depois de uma longa experiência, o que hoje penso relativamente ao delicado tema é absolutamente coerente com esta idéia. Não preciso pedir desculpas, como alguns preferem, por dizer a verdade embora seja dura. Há mais de dois mil anos, Demóstenes, orador grego famoso, defendeu com paixão nas praças públicas uma sociedade em que 85% das pessoas eram escravas ou cidadãos que careciam de igualdade e direitos como algo natural. Os filósofos partilhavam esse ponto de vista. Daí surgiu a palavra democracia. Não se lhes podia exigir mais em sua época. Hoje, que se dispõe de um enorme caudal de conhecimentos, as forças produtivas se multiplicaram inúmeras vezes e as mensagens através da mídia são elaboradas para milhões de pessoas; a maioria esmagadora, cansada da política tradicional, não quer ouvir falar nela. Os homens públicos carecem de confiança quando mais precisam dela os povos perante os riscos que os ameaçam.
Com o derrubamento da URSS, Francis Fukuyama, cidadão norte-americano de origem japonesa, nascido e educado nos Estados Unidos da América e formado numa universidade nesse mesmo país, escreve seu livro "O fim da história e o último homem", o que, com certeza, muitos conhecem, visto que foi bem promovido pelas lideranças do império. Tinha-se tornado num falcão do neo-conservadorismo e promotor do pensamento único. Restaria, segundo ele, só uma classe, a classe média norte-americana; os outros, julgo eu, estaríamos condenados a sermos mendigos. Fukuyama foi partidário decidido da guerra contra o Iraque, como o Vice-presidente Cheney e seu seleto grupo. Para ele a história finaliza no que Marx via como “o fim da pré-história”. Na cerimônia inaugural da Reunião de Cúpula América Latina e o Caribe-União Européia, celebrada no Peru no passado 15 de maio, falou-se em inglês, alemão e noutras línguas européias, sem que partes essenciais dos discursos fossem traduzidos pelas televisoras para o espanhol ou português, como se no México, no Brasil, Peru, Equador e noutros, os indígenas, negros, mestiços e brancos ―mais de 550 milhões de pessoas, em sua imensa maioria pobres― falassem inglês, alemão ou outro idioma forâneo. Contudo, agora se menciona elogiosamente a grande reunião de Lima e sua declaração final. Ali, entre outras coisas, deu-se a entender que as armas que adquire um país ameaçado de genocídio pelo império, como o tem sido Cuba desde há muitos anos e hoje o é a Venezuela, não se diferenciam eticamente das que empregam as forças repressivas para reprimir o povo e defender os interesses da oligarquia, aliada a esse mesmo império. Não se pode converter a nação numa mercadoria mais, nem comprometer o presente e o futuro das novas gerações.
É claro que da IV Frota, como força intervencionista e ameaçadora, não se fala nos discursos que daquela reunião foram televisados. Um dos países latino-americanos ali representados acaba de realizar manobras combinadas com um porta-aviões dos Estados Unidos, do tipo Nimitz, dotado com todo o tipo de armas de extermínio em massa. Nesse país, há uns poucos anos, as forças repressivas fizeram desaparecer, torturaram e assassinaram dezenas de milhares de pessoas. Os filhos das vítimas foram expropriados pelos defensores das propriedades dos grandes ricos. Seus principais líderes militares cooperaram com o império em suas guerras sujas. Confiavam nessa aliança. Por quê cair mais uma vez na mesma armadilha? Embora resulta fácil de inferir o país aludido, não desejo mencioná-lo por não ferir uma nação irmã. A Europa, que nessa reunião teve a voz ativa, é a mesma que apoiou a guerra contra Sérvia, a conquista pelos Estados Unidos do petróleo do Iraque, os conflitos religiosos no Próximo e Médio Oriente, os cárceres e as aterragens secretas, e os planos de torturas horrendas e assassinatos planejados por Bush.
Essa Europa partilha com os Estados Unidos as leis extraterritoriais que, violando a soberania de seus próprios territórios, incrementam o bloqueio contra Cuba obstaculizando o fornecimento de tecnologias, componentes e inclusive medicamentos ao nosso país. Seus meios publicitários se associam ao poder midiático do império. O que eu disse na primeira reunião da América Latina com a Europa, celebrada há nove anos no Rio de Janeiro, mantém toda sua vigência. Nada tem mudado desde então, exceto as condições objetivas, que tornam mais insustentável a atroz exploração capitalista. Por um triz o anfitrião da reunião não deu cabo da paciência dos europeus, quando no encerramento mencionou alguns pontos colocados por Cuba: 1. Cancelar a dívida da América Latina e do Caribe. 2. Investir cada ano nos países do Terceiro Mundo 10 por cento daquilo que gastam nas atividades militares. 3. Cessar os enormes subsídios à agricultura, que concorrem com a produção agrícola dos nossos países. 4. Destinar para a América Latina e o Caribe a parte que lhes corresponde do compromisso de 0,7% do PIB. Pelas caras e os olhares, observei que as lideranças européias engoliram em seco durante uns segundos. Mas, por quê amargar-se? Na Espanha seria ainda mais fácil pronunciar discursos vibrantes e maravilhosas declarações finais. Trabalhara-se imenso. Vinha o banquete. Não haveria na mesa crise alimentar. Abundariam as proteínas e os licores. Só faltava Bush, que trabalhava, incansável, pela paz no Oriente Médio, como é hábito nele. Estava dispensado. Viva o mercado! O espírito dominante nos ricos representantes da Europa era a superioridade étnica e política. Todos eram portadores do pensamento capitalista e consumista burguês, e falaram ou aplaudiram em nome dele. Muitos levaram consigo os empresários que são os alicerces e sustento dos “seus sistemas democráticos, garantes da liberdade e dos direitos humanos”. É preciso ser peritos em física das nuvens para compreendê-los. Na atualidade, os Estados Unidos e a Europa competem entre si e contra si pelo petróleo, as matérias-primas essenciais e os mercados, ao que se soma agora o pretexto da luta contra o terrorismo e o crime organizado que eles próprios têm criado com as vorazes e insaciáveis sociedades de consumo. Dois lobos famintos disfarçados de boas vovozinhas, e um Chapeuzinho Vermelho.

Entrevista Bernard Stiegler 28/05/08




















- O Sr. faz parte de uma geração posterior àquela que chamou um dia a"Belle Époque", quando havia, entre outros, os seminários de Foucault, Lacan, Deleuze e até recentemente Derrida. Como considera o legado desta geração dos anos 1960?Muitas coisas aconteceram nos anos 1960 na França... Não há apenas Foucault,Deleuze, Lacan e Derrida. Há o estruturalismo, a lingüística, Althusser e o debate político. Há Roland Barthes. Quando penso naqueles anos, indago-me em que medida posso falar deles sem que uma certa nostalgia, um luto imaginativo e uma idealização invalidem o que ainda guardo hoje. Tanto mais que se trata de uma época que conheci pessoalmente – era minha juventude, tinha 8 anos em 1960, e me tornei adulto em 1970, já trabalhava, em breve seria pai. Foram os anos em que cresci e, ao mesmo tempo, no que diz respeito à vida intelectual francesa, que conheci de ouvir-falar: não somente porque era jovem demais para ir aos seminários, mas também porque não era intelectual. Eu vinha do meio dito "popular". Todavia, tenho o sentimento de ter conhecido essa época pessoalmente muito bem, sentindo que então se passavam grandes coisas, também na política. Por exemplo, no início dos anos 1960, durante a terrível guerra da Argélia, houve a mobilização dos 121, redigido por Maurice Blanchot e Dionys Mascolo. Eu sabia que os intelectuais dessa época eram muito engajados na vida política, arriscavam-se. Francis Jeanson tinha, desse modo, organizado uma rede de ajuda à Frente de Libertação Nacional. Era também um momento de verdadeiro debate, de diálogo, entre personalidades tais como Lévi-Strauss, Lacan, Althusser, etc.Lévi-Strauss não era comunista, mas escutava os marxistas e discutia com eles. Lacan debatia com Althusser – e isso pelas vias ou no contexto de uma teoria que se chamava de estruturalismo. Lamento que hoje esse espírito tenha completamente desaparecido. Com certeza, ele era feito de algumas ilusões, quanto à potência da lingüística, quanto ao marxismo, por exemplo. Mas parece-me que, ao perder tais ilusões – e isso era indispensável – abandonou-se com o mesmo gesto uma ambição igualmente necessária.No fim dos anos 1960, entrei no partido comunista, e foi assim que comecei de fato a conhecer alguns desses debates: a imprensa comunista então os fazia ecoar,especialmente nas Lettres Françaises e sobretudo na revista teórica do partido comunista,La Nouvelle Critique. Os intelectuais se interessavam pelo que se dizia no partido comunista e o partido comunista também se interessava pelos intelectuais, mesmo quando estes não eram comunistas. Apesar de Budapeste, em 1956, e do fato de –após 1956 e a repressão à insurreição da Hungria pelos soviéticos – Claude Lefort, Jean-François Lyotard, Cornélius Castoriadise e Edgar Morin terem criado "Socialismo e Barbárie", apesar igualmente da revelação no XX Congresso do partido comunista da União Soviética dos crimes de Stalin, um diálogo continuava aberto entre os chamados "intelectuais" e o "partido da classe operária".Ora, esse diálogo também existia entre as disciplinas e estou certo de que essa abertura disciplinar provinha fundamentalmente da dimensão política do pensamento.
Isso era sustentado por antropólogos, lingüistas, psicanalistas, historiadores,epistemólogos, filósofos. Porém, o estruturalismo se desenvolvia tendo como pano de fundo uma grande ingenuidade filosófica ou metafísica. Primeiramente, havia em alguns estruturalistas a crença de que seria possível se livrar dos falsos problemas da filosofia, operacionalizando o método estruturalista; por exemplo, em alguns pesquisadores das ciências da linguagem, ou na antropologia, no movimento de Lévi-Strauss, bem como no de Dan Sperber, que em seguida se tornou cognitivista – e é preciso meditar a respeito dessa evolução. A antropologia associada à lingüística, à semiologia, à textologia e à poética, tinha a ambição de resolver as grandes questões que a metafísica colocara para si, desde Platão – mas que tinham sido mal elaboradas, na ausência de um método adequado. Esse método era o estruturalismo.No final dos anos 1960, apareceram, através de Foucault, Derrida e Deleuze,abordagens provenientes da própria filosofia, que criticavam esse método. O método estruturalista tinha ajudado a realizar a crítica da metafísica do sujeito. Mas o fazia tendendo ele mesmo a perder-se numa outra metafísica, por assim dizer uma metafísica do método, muitas vezes subestimando a riqueza de conceitos como os originários da fenomenologia, por exemplo, em relação à qual o cognitivismo – inspirado pelo estruturalismo generativo de Chomsky e pelo pensamento analítico, que se apropria de maneira mais ou menos metafísica de Wittgenstein, Austin e alguns outros, incluindose nisso evidentemente o positivismo lógico – é um avatar, mas um avatar que em seguida terá um papel enorme, pois conseguirá encontrar a realidade do devir tecnológico das "máquinas de linguagem".A crítica dessa metafísica ela mesma provinda de uma crítica da metafísica,resultou, do lado de Derrida, no que logo se chamou de "pós-estruturalismo", o qual,no fim dos anos 1970, quando estava na prisão [antes de sua carreira universitária,Stiegler foi preso por assalto a banco], foi para mim uma revelação. Houve como que uma "supercrítica", o estruturalismo ajudando a "desconstruir" a fenomenologia e esta permitindo apontar a maneira como o estruturalismo reconstruía sua própria metafísica.No entanto, penso que nisso algo se perdeu de uma ambição inspirada por um pensamento vindo de outro lugar, de Jakobson, de Trubetzkoy, e de toda a tradição dos formalistas russos e de Saussure.A partir de 1978, eu mesmo trabalhei muito com Saussure, grande inspirador dos conceitos e métodos do estruturalismo, com Trubetzkoi e Hjelmslev, e nunca deixei de pensar, e penso ainda, que a questão saussuriana não se esgotou, e que a crítica do estruturalismo, proveniente de Foucault, de Deleuze ou de Derrida, não deu conta da questão colocada pela teoria saussuriana, especialmente da divisão entre o sincrônico e o diacrônico. Derrida realizou um trabalho maior, decisivo, com a oposição entre o significante e o significado, e de modo mais geral, aliás, com todo o sistema opositivo pressuposto pela abordagem estruturalista ou a que esta inevitavelmente conduzia. Todavia, a crítica dessa oposição não tratava, a meu ver, do cerne da questão,que é a diferença – e não a oposição – entre o significante e o insignificante; nesse caso, a questão não é mais a do significado, que conduz à estase platônica, mas a da significância, que é um processo – implicado evidentemente no conceito [derridiano]de " différance".Faz 25 anos que trabalho numa teoria alternativa em relação ao que proveio de Saussure ou da crítica deste, retomando suas questões iniciais. Tudo o que escrevi é uma introdução a uma teoria da semiosis, mas que passa – e creio que essa é a novidade – pela questão da técnica. A esse respeito, cabe assinalar que no âmago dos anos 1960, enquanto Lévi-Strauss, Derrida, Deleuze, Foucault, Lacan e Barthes realizavam seus seminários, duas outras personalidades de primeira plana trabalhavam com a maior discrição: Simondo e Leroi-Gourhan. Este último, antropólogo, se dizia também estruturalista. Porém, tratava-se de um estruturalismo alternativo em relação ao de Lévi-Strauss: ele não era formalista e formulava questões de estrutura num estilo que faz pensar no de Braudel, porque unha a questão da duração [ durée] no cerne do pensamento, a partir do material técnico produzido pela etnografia, pela arqueologia e pela pré-história. Tratava-se de um estudo estrutural das relações entre o vivo e o não-vivo, ou seja, a técnica e a linguagem. Leroi-Gourhan postulava em princípio que a linguagem e a técnica constituem dois aspectos da mesma questão: a projeção do vivo para fora de si mesmo, o que hoje chamo de sua ex-clamação.Ora, naquele momento, ninguém, salvo talvez alguns marxistas, se interessava por esses trabalhos, com exceção de Derrida, que escreve um artigo a pedido de Jean Piel para a revista Critique, em 1965. Ele escreve também, ainda sob encomenda de Piel, um artigo sobre Rousseau e A Origem das línguas, e em 1967 aparece um livro que é uma combinação desses dois artigos e um desenvolvimento considerável, constituindo um comentário muito importante de Saussure e de questões da lingüística,ao mesmo tempo que de Heidegger e das aporias da Eigentlichkeit, confrontada à questão do rastro e ao que Derrida nomeia como a lógica do suplemento. Isso resulta no livro capital, para mim, mas sobretudo para a história da filosofia, que constitui a Gramatologia.Coloca-se então a questão de uma gramatologia como "ciência positiva". Mas esta exigiria uma história do suplemento, como o próprio Derrida a anuncia: o suplemento apenas é suplementar precisamente na medida em que é histórico, ou seja, acidental. Diria eu: protético, ou seja, técnico. Ora, essa historicidade do suplemento e a sua tecnicidade nunca será aprofundada. Derrida utilizará Leroi-Gourhan conceitualmente, sem resultar em nenhum diálogo com os arqueólogos, por exemplo, em nenhum trabalho com os antropólogos. No entanto, tudo isso levará Derrida a outras questões bem importantes e apaixonantes.Mas elas deixarão, na minha opinião, todo um programa ocioso, como também o diálogo entre as disciplinas, sem o qual ele não acontecerá.Eis como pude falar de "belle époque": designava com isso uma época em que ocorria um intercâmbio entre as disciplinas, de tal modo que ele repousava no elo consubstancial entre pensamento e política.



















Quanto a Simondon, este trabalhará igualmente com os objetos técnicos e com os processos técnicos, no final dos anos 1950 e no decorrer dos anos 60. Mas sobretudo ele desenvolverá um conceito capital, o processo de individuação psíquica e coletiva, em relação ao qual o que diz do processo de concretização para compreender a gênese dos mecanismos industriais é apenas uma aplicação. Simondon se encontra mais próximo de um pensamento sistêmico do que do pensamento estrutural. No entanto, ele analisa as condições de constituição do que chama de estruturas da individuação. O pensamento do que nomeia como a meta-estabilidade é essencial
tanto à compreensão do que chamei há pouco de questão da significância, quanto à análise da evolução dos sistemas técnicos.Ora, a época não se conscientizará da importância de Simondon, com exceção de Deleuze, que dele tirou proveito mas que não abriu explicitamente a discussão. E creio particularmente que Deleuze não apreendeu bem o sentido da questão técnica colocada por Simondon.Essas questões devem ser relançadas hoje. Está na hora de retomar as intenções primeiras de pessoas como Leroi-Gourhan e Simondon, a partir das críticas ou das apropriações propostas por Deleuze e Derrida, ao tempo em que se revisitam as questões colocadas por Saussure.Gostaria aqui de acrescentar que Roland Barthes desempenhou um papel importante para mim em tudo isso. Desde muito cedo ouvi falar bastante dele: Barthes escrevia artigos para jornais, em particular L’Observateur, que depois veio a ser Le Nouvel Observateur. Esses artigos se tornaram um livro, Mitologias, que eu li bem antes de fazer filosofia. Eram textos magníficos – de algumas poucas páginas, que se dirigiam ao leitor de L’Observateur. Naquele momento, os jornais tinham a audácia de publicar pessoas que, elas mesmas, ousavam se arriscar enormemente. Falando do DS 21, um modelo do fabricante de automóveis Citroën, Barthes iniciava discussões para um público vasto, as quais me foram extremamente úteis. Reli isso na prisão e foi muito excitante. Barthes – e o reprovaram bastante por isso, eu próprio assim o fiz –
parecia um tanto versátil, passando de um assunto a outro e principalmente de um modelo teórico a outro. Ele estava fascinado, apaixonado, excitado com a teoria semiológica de Saussure e, de repente, punha em causa essa teoria – então dizia-se que ele não era sério, não indo muito a fundo nas coisas. Na realidade, ele ia a toda velocidade, sendo de uma extraordinária generosidade, acreditava no pensamento e assumia diversos riscos. Muitas vezes dizia ter-se enganado, desejando passar para outra coisa, e creio que essa era, finalmente, a marca de uma grande honestidade,apoiada numa extrema vivacidade, muito livre em seus movimentos. Evidentemente ele era por vezes ingênuo, mas penso que era uma boa ingenuidade. Era uma ingenuidade generosa que convidava a pensar e que lamento ter desaparecido atualmente. Barthes trabalhou com Saussure e as questões que colocou a partir desse trabalho me fizeram refletir muito, ainda quando me pareciam bastante ingênuas, em particular como semiologia. Barthes morreu prematuramente: creio que se tivesse vivido mais tempo toda essa Odisséia que realizou com o pensamento dos anos 1960, de que era tão representativo, teria dado o que lhe era próprio e teria assumido sua grande forma –talvez como esse projeto de mathesis singularis, evocado n’ A Câmara clara, o único livro de Barthes que utilizei explicitamente em meu próprio trabalho. Ora, essa idéia de uma mathesis singularis voltou recentemente em meus escritos, como questão da singularidade e sobretudo de uma economia política das singularidades.
- Em sua opinião, quais são as forças e as estratégias de resistência que hoje se podem opor à vaga de violência neofascista – ligadas ou não ao Front Nacional[Partido de Jean-Marie Le Pen], por exemplo –, levando-se em conta que os partidos de esquerda, em todo o mundo, especialmente os socialistas na França, fracassaram em resolver os problemas mais graves das sociedades contemporâneas?Gostaria de nuançar duas palavras na questão: por um lado, acredito que não se trata de resistir ao fascismo, se é que se trata de fascismo. E, por outro lado, não é o caso de se colocar tais movimentos ultra-reativos e reacionários de imediato na categoria historicamente bem conhecida de fascismo – que, além disso, talvez nem seja tão conhecida apenas por isso, mas à qual corresponderam grandes lutas, bem identificadas do ponto de vista histórico, como o fascismo espanhol, resultando numa guerra, cujo emblema era o de "o fascismo não passará", no passaran, como se dizia contra Franco. A questão de saber o que é o fascismo é muito complicada. Por exemplo,se o nazismo é totalitário, não se pode dizer de maneira absoluta que o fascismo de Mussolini é totalitário e, em todo caso, ele não é totalitário como o que se chama de totalitarismo nazista ou o totalitarismo stalinista.De qualquer modo, não estou certo de que, por exemplo, o Front Nacional na França seja fascista no sentido próprio do termo. Evidentemente os líderes do Front Nacional reivindicam a herança fascista e cultuam relações com as ligas fascistas italianas, ou com as que pleiteiam o fascismo, até mesmo com o neonazismo da Alemanha ou dos Países Baixos e do Norte da Europa.[...]Mais uma observação: não é o Front Nacional que me interessa, mas sim as pessoas que se deixam atrair por ele. Esses são meus primeiros interlocutores. É a eles que me dirijo hoje, no momento em que lhe falo, e não aos partidos socialistas. O que me interessa é, através de meus estudantes, colegas, amigos, do Sr. mesmo, me dirigir a essas pessoas – e ao que, deles, já está no Sr., já está em mim, já é o que nos destrói, enquanto formamos um nós, pois se tal não fosse o caso nem mesmo poderíamos conceber a existência dessas pessoas e elas não nos fariam sofrer, não nos inquietariam tanto. O que me interessa é fazer de todos, meus amigos, intermediários, criando, ao lhes falar, embaixadas que se dirijam a essas pessoas. Sei que elas não me ouvirão.Mas o que me importa, quando o Sr. me coloca uma questão, é responder-lhe tendoas em vista, enquanto, afetando-me, elas me falam de mim, do Sr., de nós.Portanto, essas pessoas são meus principais interlocutores e formam como que um inencontrável interlocutor providencial, se me atrevo a dizer, depois de Mandelstam.
Não posso consegui-lo. É óbvio que se me dirigir a elas, o que lhes disser não será ouvido. Cabe então me dirigir ao Sr. para nós dois tentarmos construir uma inteligência coletiva e compreendermos que o que as faz sofrer é o limite do que nos faz sofrer, ou seja, essa é nossa insuficiência, nossa carência, nossa responsabilidade.Dediquei no ano passado um livro aos eleitores que votaram no Front Nacional em 21 de abril de 2002, na França. Num primeiro tempo, tinha pretendido dar como título "Por que não votei no Front Nacional". É uma maneira de dizer que o espantoso não é que se vote no FN, mas, ao contrário, que não haja outros a agirem da mesma maneira.Espantoso é que algo faça com que eu não vote no FN, quando se observam em toda parte tendências levando a esse caminho: o número de pessoas que conheço há muito tempo e que ouço fazer discursos islamofóbicos ou, de modo mais geral, profundamente
reacionários, não pára de crescer. Ao mesmo tempo, as passagens ao limite e os processos de ruptura, induzidos por mudanças econômicas, tecnológicas e culturais, são de tal amplitude que, finalmente, é surpreendente não haver mais pessoas que caíam nessa armadilha; ao ponto de nos indagarmos: não caímos nós também, mas de outro modo?A esse respeito, já que o Sr. fala dos partidos socialistas europeus, estes têm uma responsabilidade esmagadora na escalada de tais movimentos. Eles os manipularam,utilizaram-nos em particular na França. Não digo que sejam responsáveis por seu nascimento, isso seria totalmente injusto. Com ou sem razão, muito se acusou François Miterrand de ter manipulado esses partidos. Julgo que, infelizmente, isso não é falso.Não excluo que seja falso, espero que o seja. Mas ao mesmo tempo, esses partidos progrediram na Itália, na Alemanha, na Bélgica, em inúmeros lugares. E não se deve esquecer que a Direita espanhola, ainda no poder um ano atrás, provinha em parte do fascismo. Isso é muito inquietante. Há movimentos xenófobos no sul da Espanha abominavelmente violentos. Os partidos socialistas não são diretamente responsáveis por tudo isso. Em contrapartida, eles não perceberam a amplitude dos processos e o novo pensamento político que isso exigia, não buscando em absoluto criar um movimento social digno desse nome e renunciando a pensar o porvir do proletariado e, finalmente, a desenvolver qualquer pensamento político. Ao contrário, contribuíram a seu modo para liquidar o político.Tento, neste instante, desenvolver um novo conceito de proletariado, que chamo de proletariado generalizado, pensando o consumidor como uma espécie de proletário.No século XXI, o proletário é o produtor que perdeu sua habilitação específica, pelo fato de não dispor senão de uma pura força de trabalho, reduzida com isso ao estatuto de mercadoria: o proletário vende seu corpo que se tornou inculto, porque seu saber passou para a máquina. O novo proletário é aquele que perde, já no fim do século XX, suas habilitações, em função da padronização de seus hábitos de consumo,dispondo tão-somente de um poder de compra – este tende, contudo, a se restringir naquilo que se chama de democracias industriais. O consumidor se torna, também ele, uma mercadoria, enquanto sua consciência, como fluxo temporal e modo de acesso aos hábitos do corpo, é vendida no mercado das audiências, em que se forjam hábitos planetários de consumo.Os partidos socialistas acreditaram na estupidez do devir-classe-média de toda a sociedade, sabendo-se hoje tratar-se de uma fábula. Atualmente as classes médias estão se tornando proletárias, a um só tempo por terem empobrecido financeira e economicamente e, sobretudo, por terem mergulhado na miséria simbólica, resultante das perdas de habilitação específica. Foi a isso que os partidos socialistas renunciaram a pensar do ponto de vista político, contentando-se em administrar economicamente a dinâmica de crise do capitalismo.É a partir desse contexto que uma releitura do que se debateu nos anos 1960 deve ser reativada. Cabe revisitar tudo isso de uma maneira decididamente crítica e sem tabu. Mas é preciso fazê-lo a partir de uma questão que os partidos políticos e a maioria dos intelectuais renunciaram a pensar ou foram incapazes de fazê-lo: o que Nietzsche chama de niilismo, ou seja, a igualação tal como esta conduz a uma proletarização generalizada. A extensão, mas também a complexificação desse niilismo, é o que se traduz como reino do ressentimento. É esse ressentimento que se exprime atualmente,em toda parte e cada vez mais, em particular, bem entendido, como votos de extrema direita nacionalista, populista etc. Mas não há somente tais formas de expressão: há muitas outras, menos chocantes, porém talvez mais perniciosas. Nossa grande questão é o niilismo que produz as figuras atuais do ressentimento e que produz a gregariedade,também chamada de igualação por Nietzsche. Esse ressentimento é expresso contra todos os tipos de aspecto da grande transformação que estamos vivendo, ligada a uma mutação do capitalismo, a uma nova forma do capitalismo que não é mais em absoluto aquele de que fala Marx, e essa novidade permanece subanalisada. Tanto quanto eu
saiba, não há nenhum debate sério sobre isso entre os filósofos.Ora, além disso, não se pode analisar essa situação sem levar em conta o fato de que esse ressentimento se exprime contra o porvir técnico e tecnológico. O que a esfera política em geral não consegue pensar é a técnica – mas essa carência da política apenas traduz a da filosofia.
- A ficção, a técnica e o político estão no cerne de sua conferência no Rio de Janeiro. Qual o lugar da ficção, no momento em que justamente se vê a " hipertécnica" produzir cada vez mais efeitos ficcionais, substituindo de certo modo a narrativatradicional (epopéia, romance, crônica, conto)?É preciso, justamente, pensar a ficção a partir da técnica e não a técnica a partir da ficção. Ou, antes, é preciso pensar a técnica como ficção e a ficção como técnica, inclusive como tekhné, implicando assim Platão de imediato.
Isso quer também dizer que a questão da técnica é a questão da memória; o que a metafísica e, com ela, o pensamento político nem sempre compreenderam, cujas conseqüências teóricas e práticas nunca souberam mensurar – embora a questão tenha sido colocada desde Platão, como questão da hypomnésis, como apontou magnificamente Derrida. Foucault a reabriu, por sua vez, como a questão das técnicas de si e como a prática das hypomnémata nos estóicos e nos primeiros cristãos.A técnica foi recalcada como objeto de pensamento justo porque foi declarada como sendo estrutural e irredutivelmente fictícia. Foi também por isso que se apagou o pensamento da técnica como ficção e da ficção como técnica, em proveito de um pensamento da ficção na linguagem e como o oposto da verdade na linguagem, como pseudos, como mentira e como questão moral. Se é uma operação que foi evidentemente iniciada por Platão, o grande recalcador da questão da técnica que de alguma maneira proibiu a existência da técnica como objeto de questão, tornando-a um objeto trivial, 25 séculos de filosofia consolidaram essa posição e hoje a questão da técnica, essencial como é para o político, chega profundamente deformada pela ficção metafísica, que fez dela um problema de moral e de linguagem.Digo que, de fato, a questão é essencial para o político, no sentido de ser definidora: o que é o político, com efeito, senão a questão colocada aos seres humanos enquanto vivem juntos e enquanto, vivendo juntos, devem tomar decisões, ou seja,criar ficções? Pois tomar decisões não pode ser outra coisa senão criar ficções,transformar o mundo – e fazê-lo dentro das condições da tekhné de que dispõem ou que dessa maneira inventam. Eles não estão de acordo quanto a essas decisões e é esse desacordo que abre o debate político enquanto tal.Marx tinha dito que a questão não era mais de interpretar o mundo, mas de transformá-lo. Nietzsche esclarece que toda transformação do mundo é uma interpretação, e o contrário. Essa é a questão de uma performatividade generalizada,no sentido que Derrida a inaugurou, mas que significa uma tecnicidade fundamental da linguagem.Pelo fato de a cidade precisar tomar decisões e, portanto, produzir ficções que transformem o mundo ao interpretá-lo, procuram-se pontos de acordo; mas na metafísica buscam-se pontos de acordo fundamentados num texto que não seria uma ficção, o texto transparente de uma verdade fundacional, um texto que, em outras palavras, não seria técnica ou que denegaria sua própria tecnicidade, o texto de constituição da boa cidade, da cidade ideal, o qual vai repousar na exclusão dos poetas, precisamente na medida em que ele é constituído (mas também invalidado de antemão) pela denegação da constitutividade da técnica – justamente como poder de ficção.Sendo assim, vai-se opor o fictício ao verdadeiro.Ora, atualmente, ou seja, depois da revolução industrial e de dois séculos de capitalismo operando o maquinismo, a questão é de saber distinguir as boas das más ficções e não de purificar a verdade de toda ficção. Mas isso passa por uma consideração inteiramente nova da questão da técnica.Derrida é um pensador maior justamente porque articulou a questão da ficção com a questão da técnica. No entanto, para muitos de seus leitores, esse avanço extremamente poderoso se dissimulou numa textológica da ficção, ali onde a literatura é uma região, um país, um recanto dessa questão, num imenso oceano de questões ligadas à ficcionalidade técnica e em particular dentro dos domínios econômicos, jurídicos e científicos.Deve-se, contudo, levar em conta a necessidade de certo privilégio da literatura e, de uma maneira mais geral, da letra: elas gozam de um privilégio maior porque é na letra e, portanto, numa literalidade do pensamento, e finalmente de todo pensamento
ocidental, que se constitui qualquer pensamento político – essa constituição sendo
constitutiva apenas pela denegação, e o mesmo se pode dizer do direito. Hoje quando a tecnologia se torna numérica e discretiva, ou seja, como explico em De la misère siymbolique, "gramatizante", o que não é do domínio de uma gramatologia – ou então seria preciso desenvolver aí uma história do suplemento –mas de um processo de gramatização, toda a tecnologia se torna uma mnemotecnologia:informática, biotecnologia, numerização das tecnologias outrora analógicas etc. É isso que constitui o horizonte de um novo capitalismo. Nisso tudo, tramam-se tecnologias da memória ou se relança de um outro modo a questão da relação entre técnica e memória, numa perspectiva justamente irredutível à técnica literária ou literal, e tal como ela ficciona a memória de maneira bastante inédita. Aqui isso só funciona na medida em que ficciona, e o contrário. Ficcionar é performar, e essa performance enquanto trans-forma é tecno-lógica.A grande questão política hoje é a do que chamo em La Faute d’Epiméthée a dupla reduplicação epocal da técnica. A técnica como tecnologia industrial e mesmo hiper-industrial vem suspender os programas sócio-étnicos e sócio-políticos em vigor,e essa suspensão é uma epokhé no sentido dos filósofos: uma interrupção, um pôr em suspenso. Mas ela exige uma segunda suspensão, uma segunda epokhé. O que engendra a reatividade de que falava, o ressentimento, é o bloqueio que impede a realização dessa reduplicação. Não posso desenvolver aqui um ponto que no entanto faço questão de sublinhar: essa reduplicação deve ser pensada junto com o conceito de processo de individuação de Simondon, no sentido de – pelo fato de a técnica não conhecer mais nenhuma estabilidade – a individuação que é sua reduplicação efetiva
deve ela mesma se traduzir politicamente como processo; e como processo de interpretação enquanto transformação.A esse respeito, cabe sublinhar, para concluir, que a questão da ficção também é inevitavelmente a questão da crença. Quando decido por uma ficção, isso significa que decidi acreditar nessa ficção. Como vimos, toda decisão é uma ficção. Portanto,toda decisão é uma crença e necessidade de uma crença. Mas, por outro lado, toda crença é um querer acreditar: só posso acreditar naquilo em que quero acreditar. Em suma, a questão é ultrapassar a crítica da vontade como subjetividade do sujeito metafísico e repensar a questão da vontade como ficção na tecnicidade original, constituindo o que chamei de falta originária de origem.
É porque estamos mergulhados na ficção que somos seres submetidos à obrigação de acreditar e ao que chamo, na conferência do Rio de Janeiro, o quereracreditar.O que falta é querer acreditar – mas em negativo: noutras palavras, não se trata em absoluto de uma nova figura da mestria.Duas questões se colocam desse modo atualmente junto com a questão da ficção como tecnicidade ou tecnologia geral: a questão da crença e a questão da vontade. Devemos acreditar e devemos querer acreditar. Em relação ao que é de nossa responsabilidade, ainda que esteja para além de nossa vontade, e justamente porque está para além de nossa vontade, é o que podemos do que devemos. É a questão de nossa potência.Eis o que falta re-articular, ultrapasando a simples crítica da vontade como uma categoria metafísica, a qual se tornou hoje manifestamente sumária...
- De um modo surpreendente, Kant continua sendo uma referência maior
para se refletir sobre as questões do mundo "hiper-industrial", embora ele tivesse como horizonte de reflexão uma etapa inicial do capitalismo. Como explicar a permanência de um pensamento tão denso num tempo em que as coisas vão tão rápido? O que resta ainda da "imaginação transcendental" num espaço-tempo tão virtualizado e midiatizado?
Kant coloca a questão de hoje: a questão do critério e, com isso, da crítica
como poder de decisão. Acredito e quero acreditar que é preciso atualmente elaborar uma nova crítica. Não acredito de forma alguma que a categoria da crítica seja caduca e metafísica. Porém, isso supõe uma crítica do esquematismo kantiano. Kant pensa o sentido interno como fluxo e como distinções no fluxo, permitindo – com a condição de o reler a partir de Husserl e também de criticar Husserl com Derrida – pensar o devir-mercadoria das consciências. Além do mais, Kant, como disse Deleuze, já está pensando a morte de Deus, em outras palavras, a "fissura" do eu. É ele quem abre, no final das contas, todas as grandes questões que ainda temos diante de nós. Mas ele não vê que o esquema é suplementar – sendo apreendido numa lógica do suplemento, que é também uma história do suplemento; chamei isso de história de escoras do entendimento. Quanto a mim, tento pensar o esquema como o que chamo de retenção terciária, que é, enquanto espacialização do tempo e temporalização do espaço, o suplemento que "assombra" as retenções primárias e secundárias do presente vivo husserliano. Esse "assombramento" é a virtualização tal como já começou desde sempre,enquanto ela é o morto, que apreende o vivo, para citar Marx, mas a contrario.- O Sr. trabalha num dos institutos mais prestigiosos do mundo sobre pesquisa musical, o Ircam, fundado por Pierre Boulez. No entanto, não há muita reflexão da parte dos filósofos sobre a importância da música para o pensamento. Por que essa falta?Não se pode, justamente, pensar a música sem esse conceito de retenção terciária,sem pensar o fluxo da consciência a partir desse banho organológico que constitui um horizonte de esquemas, em que se dá a experiência sensível do musical como experiência do instrumental. Foi isso que toda a filosofia sempre rejeitou. No Ircam,atualmente faço com que avance a idéia do que chamo de organologia geral para conceber tais questões. Esse também foi o tema de um colóquio que aconteceu nessa primavera em Cerisy. A questão é da mais alta importância na medida em que a principal preocupação do capitalismo contemporâneo é desenvolver tecnologias de controle, para falar como Burroughs e Deleuze, mas que se torna cada vez mais um controle da sensibilidade, e leva a substituir a experiência do sensível por um condicionamento estético a serviço do controle comportamental. É isso que faz com que o capitalismo tenha se tornado a um só tempo cultural e hiper-industrial.



















Fonte: Brigadas Internacionais

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A Era Vargas - Parte 01

A Era Vargas - Parte 02

A Era Vargas - Parte 03

A Era Vargas - Parte 04

EM DEBATE: Política de extermínio na Palestina

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O conflito entre Israel e Palestina chega a mais uma fase lamentável. Depois do fim da trégua - que venceu em dezembro do último ano - e a retomada de lançamento de foguetes palestinos no sul de Israel, a faixa de Gaza está sendo novamente atacada pelo exército israelense. Até agora, mais de 500 palestinos foram mortos e o número de feridos ultrapassa os 2,5 mil.

Apesar da crescente pressão internacional, Israel se nega em cessar fogo e conta com apoio do governo dos Estados Unidos (EUA). Os dirigentes israelenses afirmam que o ataque só cessará quando o Hamas for destruído.

Em entrevista à Radioagência NP, a professora e especialista em cultura árabe da Universidade de São Paulo (USP), Alerne Clemesha (HISTORIADORA DA USP), fala sobre o histórico do conflito entre os dois povos e mostra como, ao contrário do que a grande mídia insiste em desmentir, a ação de Israel para com os palestinos denota uma política de segregação e extermínio.

Radioagência NP: Alerne, fale sobre a origem deste conflito.

Alerne Clemesha: O que está acontecendo em Gaza é nada mais que a continuidade do que é a política israelense desde que surgiu o estado de Israel, em 1948. Neste ano, assim que a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a partilha da chamada "Palestina histórica" [engloba Israel, Cisjordânia e faixa de Gaza], as forças sionistas começaram a realizar ataques a vilarejos palestinos de toda a região, forçando a população palestina a fugir. Os israelenses realizaram massacres e fuzilamentos. De 800 vilarejos da Palestina histórica, foram destruídos um total de 530.

RNP: Mas há registros de todo esse massacre? E qual a razão desse sionismo?

AC: Isto está muito bem registrado pela chamada nova historiografia israelense. Esse esforço do sionismo era para criar um Estado que fosse puramente judeu. Não havia interesse nenhum na aceitação de diferentes etnias e religiões. Está comprovado que aquilo que aconteceu em 1948 não foi conseqüência de uma guerra. Esses 800 mil palestinos expulsos, do que hoje é a terra de Israel, deixaram para trás tudo que gerações construíram e que fazia parte de sua vida. Hoje, a população da faixa de Gaza é de 1,5 milhão, sendo que 1,1 milhão são refugiados. Ou seja, descentes daqueles que foram expulsos em 1948. Esses também foram para Cisjordânia, para os países árabes ao redor e também para o mundo todo. A partir daí os palestinos passaram a se espalhar sem ter um Estado próprio, e sem ter, até hoje, uma representação própria.

RNP: A que você explica essa falta de ação das potências mundiais e organismos competentes em intervir para resolver de vez este conflito?

AC: A própria criação do Estado de Israel teve mais que um fator motivador. Nós comentamos aqui da necessidade de reparar os judeus pelo crime do holocausto, agora outro motivador, provavelmente mais importante, porque antecedeu esse, foi o de usar o sionismo como aliado para a dominação dentro do Oriente Médio. Foi assim que começou o apoio britânico ao sionismo antes da Segunda Guerra Mundial. Esse fator continuou ao longo da segunda metade do século XX. Israel continuou a ser o grande aliado dos EUA, depois de ser da Inglaterra, e isso faz com que os EUA agora deem um apoio incondicional ao Estado de Israel. E essa aliança política de interesses é o que impede que a ONU se encarregue da situação de fato, porque a Assembléia Geral [da ONU] sempre votou que Israel terminasse essa ocupação dos territórios palestinos.

RNP: É exagero dizer que há uma política de extermínio do povo palestino?

AC: Não há mais como negar que há um extermínio do povo palestino. Ali você tem uma política de segregação racial que cria um estado de apartheid, além de criar esses bolsões que são hoje guetos palestinos murados, e veja que quando eu uso esse termo não é um exagero. Se você pegar a cidade de Belém, na Palestina, [Cisjordânia] essa cidade tem um muro dando a volta nela. Não tem como entrar e sair de Belém sem a permissão do exército israelense. E depois de toda essa política paulatina de segregação cada vez maior, há a possibilidade absoluta de realizar um massacre.

RNP: Como você analisa a figura do Hamas nesse conflito?

AC: O Hamas é um partido político. Independentemente da sua casta de fundação ou teor religioso do partido, o Hamas vem declarando – e a imprensa não divulga – que gostaria de realizar conversas para reconhecer o Estado de Israel. Isto não está escrito na sua carta [do partido], mas eles têm dado declarações. Mas por que não colocam isso na carta? Porque seria como entregar para Israel a única troca que o Hamas teria. Israel ainda não reconhece direito ao Estado palestino. Por mais que se possa criticar o Hamas por seu aspecto religioso, trata-se de um partido. Imagine só se fosse o governo palestino, por exemplo, dizendo que o governo eleito do Likud [partido do ex-primeiro ministro israelense Ariel Sharon] deve ser derrubado por ele ser religioso. Ninguém aceitaria, mas seria exatamente a mesma coisa. Só se aceita isso porque existe na cabeça das pessoas toda uma preparação ideológica para aceitar que o árabe é terrorista.

RNP: O Hamas tem apoio da população palestina?

AC: A população palestina não é marjoritariamente a favor de um Estado islâmico. Trata-se de uma população laica que até há alguns anos atrás, 96% dela era a favor de um Estado laico e não de um religioso, mas o boicote ao governo eleito do Hamas apenas o fortalece. A grande maioria dos palestinos em Gaza que não eram favoráveis ao Hamas, passam a ser, pois enxergam o seu apoio ao Hamas como uma resistência à Israel.

De São Paulo, da Radioagência NP, Juliano Domingues.

06/01/09

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Jesus vai em um Rolls-Royce à igreja do Reverendo Dollar 27/11/07 por Jorge MAJFUD.
















Em um movimento político pouco usual, o senador republicano por Iowa, Charles Grassley, iniciou uma investigação sobre possíveis práticas econômicas irregulares dos maiores telepastores dos Estados Unidos. Daí derivou-se o questionamento sobre um costume comum na maioria dos países do continente: as igrejas estão isentas de pagar impostos, enquanto seus líderes, pastores e empresários ficam cada dia mais ricos.
Este privilégio para as igrejas está ampardo, nos Estados Unidos e na América Latina, sob o aceito princípio de liberdade de religião. Não está claro, entretanto, porque o pagamento de impostos por uma igreja poderia significar um ataque à liberdade de culto. A prescrição de dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus não ocorre nesses casos. Nem sequer quando o César é o próprio povo que deve trabalhar para manter essas fabulosas estruturas lucrativas. Em uma recente entrevista ao vivo por CNN (7 de novembro), Kyra Phillips e Don Lemon questionaram nosso vizinho de College Park, da Georgia, o multimilionário reverendo Creflo Dollar, por possuir dois Rolls-Royces, jatos privados, casas e apartamentos de vários milhões de dólares cada um, além de uma igreja multimilionária enriquecida pelas doações de ricos e pobres, muitos deles com sérias dificuldades econômicas.















Esses ministérios são qualificados como igrejas, e não estão obrigados a preencher declarações de impostos como sim devem fazê-lo outras non-profit organizations (organizações sem fins lucrativos). A tradição de justificar as riquezas materiais enquanto se predica o desprendimento do mundano para a salvação da alma é muito antiga. A Igreja católica tem sido — com exceções, como os teólogos da libertação e outros “padres de periferia”— há muito tempo, especialista na matéria. No caso das mega-igrejas protestantes, além de uma prática empresarial, a tradição está apoiada pela ética calvinista: a riqueza não é um obstáculo para entrar no Paraíso, mas uma prova das preferências de Deus, que resolveu castigar os pobres por sua pobreza. Este aspecto teológico é muito semelhante ao karma hindu, e seus resultados sociais também: a moral da alta casta é consumida, principalmente, pelas castas mais baixas. Em todo o caso, os pobres servem para que os ricos exerçam sua compaixão pagando periodicamente impostos morais que, mais tarde, servirão para financiar seu descanso no Paraíso.Um dos jornalistas de Atlanta recordou ao reverendo Dollar a recomendação que fez Jesus ao jovem rico que foi lhe pedir conselho, de se desprender de seus bens materiais para entrar no Reino dos Céus. Recomendação que terminou com a tristeza do homem rico e a observação do Mestre sobre a dificuldade que poderia ter para entrar no Céu, como a de um camelo que quisesse passar pelo buraco de uma agulha. Não obstante, o reverendo Dollar argumentou que se isso fosse exatamente assim, nenhum rico poderia entrar no Paraíso. Deste raciocínio se deduz que o Messias devia estar brincando ou talvez exagerasse um pouco. Está correto que o Filho de Deus baixou à terra com um montão de utopias subversivas, mas tampouco era para tanto. Com a realidade não se pode.
Citando artigo e versículo correspondente, o reverendo recordou que, na realidade, Jesus havia dito que para cada coisa que a pessoa se desprendesse receberia um prêmio multiplicado várias vezes. Alguns pensamos que Jesus se referia ainda a um prêmio moral ou ao Reino dos Céus; não ao Reino do Dinheiro. Mas sempre é tempo de aprender. Por essa nova razão teológica, segundo o Evangelho do Dinheiro, a riqueza de um homem com fé — com fé no Senhor — significa que foi premiado por seu hábito de se desprender generosamente de uma parte de suas posses. Não outra é a lógica da Bolsa de Valores: quem investe, separa-se de algo para multiplicá-lo. Nenhum empresário razoável espera investir um dólar em Wall Street, em Amsterdã ou em Xangai para receber um beijo ou a ascensão espiritual de que falava o Buda. Espera-se receber mais do mesmo: dinheiro, capitais, lucros financeiros. Aqui, os valores não são valores morais, nem um bem é o que se opõe ao mal.No século XVI, investir em indulgências significava que por alguns florins de ouro um violador podia obter o perdão do Vaticano e, conseqüentemente, o perdão de Deus. Mais antigo, e em curso, é a lavagem da consciência com o bom uso da esmola. A instituição da esmola é fundamental, porque o desprendimento deve ser voluntário e sem comprometer os ganhos. Como dizem muitos conservadores religiosos pela televisão, com sua eterna ansiedade proselitista, só assim, por um ato de vontade, prova-se a bondade do doador. Se a bondade passa pelo Estado, mediante a compulsiva cobrança de impostos aos ricos, estes eleitos de Deus, comete-se um sacrilégio. Deus não pode distinguir quem paga impostos de boa vontade e quem o faz com rancor. Tampouco Deus pode receber no Paraíso toda a Humanidade. Assim não vale. O Paraíso é um resort VIP com acesso limitado, não um direito democrático. Algumas igrejas, inclusive, definiram o número exato de membros possíveis. Como se no dia da criação da Humanidade, Deus houvesse se divertido imaginando um Inferno eterno onde arderiam suas pequenas criações, para regozijo de seus poucos preferidos, que contemplariam das alturas semelhante espetáculo de tortura coletiva, ou pior, virando a face ao horrível destino de seus irmãos.Não vamos dizer que necessitamos um Deus mais humanista, porque se supõe que existe Um só. Não vamos dizer a Deus o que tem de fazer. Em todo caso, não faria mal uma leitura mais humanista das Sagradas Escrituras para deixar de lhe atribuir condutas tão sectárias, materialistas e cheias de ódio ao criador de Tudo.O mexicano José Vasconcelos, fervoroso opositor da hegemonia norte-americana, recordou em “La raza cósmica”(1925) uma festa diplomática no Brasil: “Contrastou visivelmente a pobreza da recepção americana com o luxo de outras recepções; mas em honra da verdade, a mim parece admirável e digno de imitação o proceder ianque, pois os governos não têm o direito de fazer esbanjamentos com o dinheiro do povo”. Entretanto, assim como os Estados Unidos haviam sido fundados por revolucionários que se opunham à tradição monárquica e religiosa da Europa, e agora se identificam com os valores opostos do conservadorismo ortodoxo, assim também o original espírito “republicano”, que foi sinônimo de austeridade e democracia, hoje representa a ostentação e o elitismo. Assim também o cristianismo primitivo era todo ao contrário em comparação ao hoje triunfante cristianismo do imperador (São) Constantino.Quase ao final da entrevista, o jornalista lhe perguntou se pensava que Jesus teria passeado em um Rolls Royce, ao que o reverendo Dollar respondeu, com calma, algo assim como: “Penso que sim. Por que não? O Senhor andava em um burro no qual nenhum outro homem antes havia montado”.Deixo ao leitor que descubra a lógica deste reverendo raciocínio teológico.














Fonte: http://brigadasinternacionais.blogspot.com/2007_11_01_archive.html

entrevista Slavoj Zizek 10/10/07

Slavoj Žižek (Liubliana, 1949) grita, ri, aplaude. Os movimentos dos seus braços tornam-se convulsivos, mas do personagem emana uma grande cordialidade. É um filósofo pluridisciplinar que se deu a conhecer nos círculos psicanalíticos e, em pouco tempo, se converteu numa estrela do pensamento contemporâneo. Colabora no The New York Times, é professor convidado nas universidades de Paris (onde estudou), Columbia, Princeton e Georgetown e preside à Sociedade para a Psicnálise Teórica da Eslovénia. A partir de Karl Marx, Lenine e de Jacques Lacan efectua uma crítica sistemática da pós-modernidade e exige a reinvenção de uma ética de esquerda capaz de enfrentar a revolução tecnológica e a biomedicina. Vive num pequeno apartamento de Liubliana, na capital eslovena. O mobiliário é barato e a roupa está guardada nos móveis da cozinha. - Como decidiu ser filósofo?- Penso que para se bom em qualquer coisa faz falta uma vocação alternativa. Como é o caso de Levi Strauss que queria ser músico e se tornou antropólogo. Eu, desde a adolescência, sonhava em ser realizador de cinema, mas aos 18 anos comecei a estudar filosofia. Foi como a descoberta de São Paulo a caminho de Damasco. Nunca tive dúvidas. Comecei a estudar a escola de Frankfurt e de outros marxismos dissidentes, e ao chegar à universidade fiz-me heideggeriano, que na Eslovénia era o máximo da dissidência.
- Por que Heidegger era considerado dissidente?- Cada uma das repúblicas da Jugoslávia tinha adoptado uma filosofia diferente, mais próxima de cada um dos grupos no poder. Na Eslovénia imperava a Escola de Frankfurt. Na Croácia preferiam os marxistas da Praxis e Heidegger: para ascender no partido comunista croata convinha dominar a femenologia. O da Sérvia era muito diferente, filosofia analítica. Então, quando surgiu o estruturalismo, Lacan, Foucault, Althusser e demais, aconteceu que as escolas rivais da Eslovénia, a de Frankfurt e a de Heidegger, esqueceram as suas diferenças para enfrentar-se de uma forma feroz, paranóica, contra os estruturalistas. Isso intrigou-me. Eu tinha 21 anos. Passei os seis ou sete anos seguintes a ler, de uma forma confusa, a teoria francesa, um pouco de Foucault, um pouco de Derrida, até que descobri a minha própria seita: sou um estalinista ortodoxo lacaniano, dogmático e nada dialogante.
- Como pode recusar o diálogo?- O meu lema é: nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade. Não, seriamente, a filosofia é necessariamente dogmática. Conhece algum diálogo filosófico que tenha funcionado? Os de Platão? Nada sai dai, sobretudo nos diálogos dos sofistas da última época em que há um tipo que fala todo o tempo, enquanto o interlocutor se limita a dizer “ó sim, por Zeus, quanta razão tens”. Heidegger tinha razão quando dizia que cada filósofo tem uma percepção fundamental e limita-se a repeti-la ao longo da sua obra.- Qual é a sua percepção fundamental?- O meu problema é o seguinte: nós, da esquerda, ainda não dispomos de uma boa teoria sobre o que foi o estalinismo. A Escola de Frankfurt, Jurgen Habermas, todos estavam obcecados com o marxismo e o anti-semitismo, mas não disseram nada sobre o estalinismo. Existe um livro de Herbert Marcuse, mas não é mais do que um interpretação dos textos dos congressos do PCUS. Quando se lê Habermas nunca se poderá adivinhar que, enquanto o filósofo escrevia, existiam duas Alemanhas.Um amigo da Escola de Frankfurt explicou-me que não analisaram os estalinismo para não parecerem anti-comunistas. Como? Mas se eram abertamente anti-comunistas! Alguns apoiaram a intervenção dos Estados Unidos no Vietname!Qual é a percepção fundamental da Escola de Frankfurt? O que chamam a dialéctica do iluminismo, significa que existe um potencial opressivo e totalitário no iluminismo moderno europeu. Há melhor exemplo que o Estalinismo? Enquanto o fascismo estava abertamente contra o iluminismo, o estalinismo constituía-se como um iluminismo radical. Não digo que o estalinismo tenha sido melhor que o nazismo, afirmo que há nele algo de enigmático e de desconhecido.Um detalhe revelador: os presos do Gulag tinham a obrigação de enviar a Estaline telegramas de felicitações pelo seu aniversário. Alguém imagina os judeus de Auschwitz a felicitar Hitler? Pela mesma razão, o nazis não organizaram processos para que os judeus confessassem que participavam numa conspiração mundial contra a Alemanha.Os estalinistas, pelo contrário, necessitavam de confissões de arrependimento, porque consideravam que um traidor, inclusive, integrava a razão universal e podia ver a sua própria mentira.
-O nazismo e o estalinismo desembocam igualmente num anti-semitismo brutal.- É a modernidade. Até à Revolução Francesa, o objectivo consistia em baptizar e cristianizar os judeus. Acreditava-se na emancipação. Depois dizia-se que o problema radicava na sua natureza e portanto só restava matá-los. É curioso, os modernos crêem ser mais “liberais” que os pré-modernos e isso não é assim.-Auschwitz é a grande tragédia da nossa época.- Sim. Mas aquilo não pode ser representado como uma tragédia. Já reparou que os melhores filmes sobre o Holocausto são comédias. Filmes como “A Vida é Bela” ou outros italianos, “Sete Belezas”…Quando as coisas são demasiado horríveis há que explicá-las no campo da comédia, porque a tragédia requer dignidade. E não houve dignidade em Auschwitz, nem nos juízos do estalinismo.Na Eslovénia, depois da guerra, tivemos um processo atroz, o chamado caso Dachau. Os sobreviventes do campo de Dachau foram detidos e acusados de cooperar com os nazis, porque se tivessem sido bons comunistas teriam sido mortos. Foram culpados de sobreviver.-Há dignidade na guerra do Iraque?- Escrevi sobre isso, utilizando uma velha parábola iraquiana: um tipo queixa-se a um outro, dizendo que lhe devolveu um cantil furado que lhe emprestou. O outro responde que nunca lhe pediu emprestado um cantil. Logo, conclui que o devolveu intacto. E acrescenta que já estava furado quando o levou emprestado.As justificações de Washington para a guerra do Iraque são igualmente incongruentes. George Bush garantiu que o Iraque possuía armas de destruição maciça. Mais tarde, que ainda que não tivesse essas armas, cooperava com a Al Qaeda e constituía uma ameaça para o mundo. No final, argumentou que Saddam Hussein era um ditador terrível e que isso era razão suficiente para derrubá-lo. Na realidade, as razões eram a extensão da democracia, a demonstração da hegemonia mundial dos Estados Unidos e o controlo do petróleo, argumentos incongruentes entre si que condenavam ao fracasso da invasão.-Os Estados Unidos utilizam a tortura na sua “guerra contra o terror”. - Estou contra a tortura, mas posso compreender certas situações. Imaginemos um velho exemplo, tenho ante de mim um tipo que sabe onde está sequestrado o meu filho: não posso prometer que não o torturaria pessoalmente até me dar essa informação. O importante é manter a distinção entre um caso desesperado e a legalização da tortura. Todos sabemos que a CIA é especialista em interrogatórios violentos e brutais, mas não devemos aceitar que se fale da tortura como algo normal.Alguma coisa está a mudar na moralidade pública nos Estados Unidos. No outro dia, na televisão, um congressista conservador fez o seguinte raciocínio: os nossos prisioneiros eram desde o início “objectivos legítimos” de guerra mas como sobreviveram aos bombardeamentos podemos fazer com eles o que queiramos, já que desde o princípio tínhamos o direito de os matar.Pôs-se em marcha uma “revolução silenciosa”, as regras fundamentais da ética estão a mudar e nós não queremos sequer estar a par disso. Sobre isso estou de acordo com Habermas.-Habermas está bastante de acordo com o Papa Benedicto XVI. Escreveram um livro a meias.- Estou de acordo com o diagnóstico de Habermas, mas não com as soluções que propõe. A sua atitude é puramente defensiva: não façamos isto, não façamos aquilo.Não podemos dizer, como Habermas, que há um limite na eugenésia e não devemos ultrapassá-lo. Temos que reinventar a ética. Hoje é possível implantar um chip num rato e teledirigi-lo. Obviamente, será possível fazer o mesmo com o ser humano.-Isso é criar um Golem-Coloca-se uma questão filosófica: como sentirá o ser humano esse controlo remoto? Terá consciência que o controla uma força exterior? Acreditará que é ele mesmo o emissor das ordens? Inclino-me para a segunda hipótese: o ser humano teledirigido não se aperceberá de nada, sentir-se-á livre.-Jurgen Habermas propões uma drástica auto-limitação da investigação científica para não destruir a essência do ser humano.- E isso como se faz? É impossível. Se podem-se manipular os genes, vão ser manipulados. Os chineses já estão a experimentar o controlo remoto do cérebro. Isso espanta muito as pessoas religiosas. No outro dia participei, em Viena, numa mesa redonda em que se encontravam dois Bispos. Perguntei-lhes porque estavam contra experiências com o cérebro. “Porque o homem é uma criatura divina, com uma alma divina, etc”, responderam-me. Mas, se não somos simples mecanismos biológicos, se temos uma alma imortal, podem-nos fazer o que seja ao cérebro. Sobra-nos a alma, não é?Não, os Bispos são secretamente materialistas e temem que, na realidade, só sejamos o nosso cérebro. Um Bispo bastante esperto observou que o cérebro era um televisor e a alma um descodificador, necessários um ao outro.Esse foi um argumento inteligente, mas falso. Se um remédio pode fazer-me mais valente, mais lúcido, mais generoso, onde é que fica a ética? Significa que somos só química. Somos então livres? Eu acredito que sim. Mas se bloquearmos a experimentação científica só estaremos a manter uma ficção de liberdade.- Cita com frequência Lenine e escreveu um livro sobre ele.- Muita gente discute sobre a escassa participação das mulheres na política e sobre se convém estabelecer quotas. Zapatero não se entreteve com debates e impôs as quotas. Isso é leninismo: deixemos de esperar pelas condições objectivas, façamos e vejamos se funciona.Sobre a minha posição política existe uma certa confusão. Escrevi um livro sobre a actualidade do pensamento leninista, mas o que proponho é “repetir” o leninismo no sentido que Walter Benjamin dava à palavra “repetir”. Isso pressupõe reconhecer que Lenine está morto. Não tenho soluções, declaro-me mais pessimista que os partidários das “terceiras vias”. Para mim, Tony Blair é um grande traidor. A esquerda deve ser reinventada.-Pode-se pensar numa esquerda à margem do capitalismo?- Há quem considere o meu leninismo como uma provocação. Também há que se ria do “fim da história” anunciado por Francis Fukuyama, mas todos actuamos como se Fukuyama tivesse razão, como se o capitalismo liberal fosse a culminação do progresso. Não estou louco nem preconizo a fundação de um novo partido revolucionário. Só proponho que mantenhamos a mente aberta e não acreditemos que a tolerância, o Estado do bem-estar e as “terceiras vias” constituam valores supremos.-A respeito do capitalismo ele tem demonstrado uma capacidade enorme de vencer que o pretende contradizer- Verdade. Vivemos várias vezes a “crise final” do capitalismo. Para Marx foi o imperialismo, para Estaline foi o fascismo…o capitalismo está sempre em crise e está cada vez mais forte. Agora há bastante gente que acredita secretamente que uma grande catástrofe ecológica acabe com o capitalismo. Pelo contrário, imaginem-se as oportunidades de negócio que se abririam com uma grande catástrofe?

Fonte: http://brigadasinternacionais.blogspot.com/2007_10_01_archive.html

terça-feira, 11 de novembro de 2008

O HORROR TEM EXPLICAÇÃO



Quando se fala da 2ª Guerra Mundial, no cinema, na TV, nos jornais e nas revistas em quadrinhos, vem a tona o clássico museu de horrores. A escola não tem como escapar e, levada pela onda, veicula também frente a atônitos jovens a visão Boris Karloff da História. Eis como ela se resume: 1 350 000 toneladas de bombas despejadas, a maior parte sobre populações civis; 55 milhões de mortos; dezenas de cidades históricas reduzidas a pó com seus tesouros milenares; campos de extermínio e tortura; experiências científicas sádicas com porquinhos-da-índia humanos. Por toda parte fome e devastação, hordas de refugiados trêmulos, feridos e aleijados arrastando-se como espectros em busca de um inexistente abrigo.
A exibição desse painel, nas décadas de 50 e 60, incendiou e feriu a imaginação dos atuais quarentões. E, quando pedíamos uma explicação, a que nos davam era ainda mais absurda e sinistra: tudo isso fora por nada, só porque um pintor fracassado, com a cuca cheia de cerveja e frases de Nietzsche resolvera dominar o mundo. Graças a Deus, fora detido em tempo pela cruzada mundial das democracias (em cujas fileiras se incluíam Stalin e o nosso fascismo doméstico!). E o Bem, encarnado na forma de duas bombas atômicas, conseguira finalmente vencer o Mal.
Mas o professor secundário, que afinal é um educador e não um encenador de história de Drácula, bem pode deixar para a TV e os filmes essa versão: inspirada em louváveis propósitos de propaganda antinazista, ela tem efeitos letais sobre a inteligência juvenil, que, ao ver fatos grandiosos e horrendos boiando no vácuo da mais inexplicável gratuidade, não pode deixar de concluir que o mundo dos adultos é, em si mesmo, tão doido quanto o sonho nazista de dominá-lo. Qualquer primeiranista de Psicologia conhece o efeito hipnótico e fascinante do horror exibido sem explicação. E qualquer educador que tenha dois grãos de sensatez poderá, numa aula sobre 2ª Guerra Mundial, obter um resultado melhor do que levar involuntariamente os alunos à convicção de que Hitler, afinal, como o próprio Drácula, talvez tivesse lá seus encantos. Aliás, ele não bebia nem fumava e era vegetariano, o que o torna ainda mais simpático a certas mentalidades.
Mas como fazer? Como encontrar, sob o aranhol de maldades e loucuras, o fio sutilíssimo de alguma razão de ser, que, sem desculpar o crime moral, atenue ao menos a impressão de absurdidade lógica do que fizeram os alemães? Quem nos dá a Hitler em revistapista é um outro alemão, o historiador e economista Max Weber (um dos mentores da República liberal de Weimar, destruída pelo nazistas). Diante da confusão dos fatos históricos, dizia Weber, é preciso buscar a intenção que os homens tinham e o significado que, certo ou errado, atribuíam ao que faziam. Aí até um Hitler pode aparecer reduzido a proporções humanas e compreensíveis (loco si, pero no tonto, como diria Cervantes) e despido da aura satânica que, numa época de rebelião generalizada contra a divindade, só faz dignificá-lo.
Que é que Hitler queria? Após cinco décadas de pesquisas, seus planos são hoje bem conhecidos. Hitler havia estudado História - o bastante para conhecer as advertências que, desde o século passado, anunciavam o fim próximo do domínio europeu e a emergência de novos poderes. "Durante os anos intermediários do século 19", afirma o historiador britânico Geoffrey Barraclough, "escritor após escritor predissera a decadência da Europa e a ascensão da Rússia e dos Estados Unidos como as duas grandes potências mundiais." A expansão industrial desses dois países, de 1890 a 1914, ultrapassou a de seus rivais europeus, parecendo confirmar a previsão, a qual, em 1918, com o sucesso do livro de Oswald Spengler, A Decadência do Ocidente (que teve entre seus assustadíssimos leitores o jovem Adolf Hitler), saiu do círculo dos estudiosos para tornar-se lugar-comum e alimentar o debate político.

APENAS UM PASSO
O rumo das coisas logo após a 1ª Guerra atenuou temporariamente os temores europeus. De um lado, os EUA, ressentidos com o rechaço das propostas do presidente Woodrow Wilson na Conferência das Nações, Culto a Hitlerhaviam-se fechado no isolacionismo. De outro lado, a nova Rússia soviética, atrapalhada com seus problemas internos, mandara às urtigas o plano trotskista de revolução mundial e fora lavar sua roupa suja em casa, sob o lema do "socialismo num só país". Em suma: a águia americana fora chocar seus ovinhos, e o urso moscovita entrara em hibernação. A subida dos novos poderes fora interrompida em pleno ar, e o leão europeu parecia novamente ocupar o palco sozinho.
Mas era só aparência. Afinal, o alegado isolacionismo não adormecera os planos norte-americanos de expansão no Extremo Oriente (foi justamente por mexerem demais nesse vespeiro que os americanos estouraram a paciência japonesa), e de outro lado o socialismo "num só país" não diminuíra em nada a agitação comunista nos demais países. Em parte alguma o caráter provisório da situação européia era mais visível do que na Alemanha. Os alemães puderam sentir o peso do poderio americano em tempo de paz quando tiveram de depender de banqueiros de Nova York para pagar indenizações de guerra aos franceses. Por outro lado, a esquerda alemã estava tão forte que conseguira, com uma greve geral, deter um golpe militar e promovera insurreições armadas em Hamburgo e na Saxe-Turíngia. Diante disso, alguns (entre os quais Hitler, que acabara de entrar na política) entenderam que os ovos da águia acabariam produzindo águias e que o urso estava dormindo com um olho aberto.
Daí ao projeto de um novo império europeu que se levantasse como um Sansão entre as duas colunas para derrubá-las era apenas um passo. Mas quem o daria? No fundo, a idéia estava na cabeça de muita gente - que de nazista não poderia ter nada, mas, tendo sido educada em princípios e valores europeus, temia que com o fim da Europa o mundo fosse deixado à mercê da tecnocracia americana e da violência comunista, pondo fim a uma era de liberdade, cultura e humanismo. O que essa gente não via era que a liberdade, a cultura e o humanismo tinham sido só para os europeus e se fundavam na opressão dos povos coloniais (que depois da 2.' Guerra acabariam pondo suas esperanças na tecnocracia ou no comunismo). Também não via que a mesma disputa de interesses coloniais encerrava cada potência européia num exclusivismo nacionalista, fazendo com que a idéia da unidade européia, tão ardorosamente defendida no papel (entre outros, por Winston Churchill), tivesse de se contentar com as lisonjas e acabar sem nenhuma tradução na prática. Desprezada pelos poderes, a idéia ficou solteira, até que veio um aventureiro - Adolf Hitler - e dela lançou mão, dando como dote à noiva raptada o corpo e a força agente de um organizadíssimo movimento de massas. E tão providenciai parecia ela que mesmo assim germanizada - vale dizer: posta a serviço de um exclusivismo nacional entre outros - conquistou multidões de adeptos em toda a Europa, e não só na Alemanha.
Não há por que evitar os fatos deprimentes. Às vésperas da invasão da Renânia (1933), o nazismo ainda era visto com simpatia por boa parte dos franceses. Os ingleses que achavam Hitler a very kind gentleman não moveram um palito em defesa dos interesses franceses na Renânia, e somente palitos simbólicos em defesa da Polônia (invadida emPasseio? 1º de setembro de 1939, começo "oficial" da guerra). "Nada mais ilusório", diz Samuel S. Salinas - um dos poucos historiadores brasileiros atualmente dedicados à 2ª Guerra Mundial -, "do que imaginar que o mundo se levantou em peso numa grande cruzada contra o nazismo. Quando Hitler pôs as manguinhas de fora, o máximo que todos fizeram foi tentar apaziguá-lo com ofertas de colônias na África e na Ásia."
Por quê? Eram todos nazistas? Não. Eram europeus, e não tinham vontade de reagir pela violência porque a Alemanha, país europeu com um discurso europeu, não lhes parecia o perigo maior. Foi assim que Hitler - escorado, doutro lado, no pacto de não-agressão que firmara com Stalin - pôde ocupar a Áustria, a Tchecoslováquia, a Polônia sem maiores problemas, e finalmente tomar em quinze dias (por telefone, ironiza Salinas) uma França onde a direita não pretendia hostilizar o suposto líder do europeismo anticomunista e a esquerda não queria votar verbas militares para não fortalecer o "Estado burguês" nem desagradar a Stalin, que andava de namoro com Hitler. (Quando depois Stalin mudou de política e o premier Lavai lhe perguntou o que fazer com os antimilitaristas franceses, Stalin respondeu: Enforque-os.) Em suma: ao apropriar-se da idéia da unidade européia, Hitler lisonjeou e confundiu milhões de europeus, que se transformaram, assim, involuntariamente, em cúmplices dele contra seus próprios países, ao menos por omissão.
A coisa mais estranha foi que ele não enganou só aos outros mas também a si mesmo, pois nunca pareceu enxergar a menor contradição entre ser o apóstolo da unidade européia e, ao mesmo tempo, um nacionalista alemão fanático. Com a mesma naturalidade ele visitava reverentemente o túmulo de Napoleão Bonaparte, de quem se imaginava um sucessor, e pregava a subjugação das "raças inferiores", das quais emergira o general francês. Os melhores biógrafos - Shirer, Fest, Toland - deixam claro que Hitler acreditava de fato em ambas as coisas. Essa contradição acabou por se refletir na condução da política e da guerra, levando ao desastre o plano do Grande Império.
Para compreender o plano total de Hitler, é preciso colocar num mapa a totalidade dos territórios onde ele pretendia estender o domínio ou pelo menos a influência alemã: o mundo que Hitler inventou. Se compararmos esse traçado imaginário com um mapa de como o mundo ficou realmente depois da 2ª Guerra, compreenderemos, ao mesmo tempo, por que a guerra se travou e em que ela determinou o curso da História nos anos subsequentes.
O mapa mostra:
1. As zonas efetivamente ocupadas pelas armas alemãs.
2. As zonas pretendidas por Hitler.
3. As zonas coloniais pertencentes aos países europeus que Hitler invadiu, as quais, assim, entravam na órbita de influência alemã.
4. As zonas coloniais pertencentes a países aliados da Alemanha (Itália, Japão) e a países oficialmente neutros, mas colocados sob a órbita de influência alemã (Espanha, Portugal).
5. As zonas pretendidas é ocupadas pelo Japão.
Somem tudo e verão que Hitler de fato desejava tirar a Europa da condição de território espremido entre dois gigantes emergentes (URSS e EUA). Sua pretensão era suprimir a URSS e deixar o mundo dividido em apenas dois blocos: Europa, de um lado (abrangendo os Impérios Britânico e Alemão, e sustentada a Oriente pelo Japão), e, de outro, os Estados Unidos.
Última fotoSegundo Salinas, houve uma diferença fundamental entre a 2ª Guerra e as anteriores guerras européias: estas tinham sido em geral pela posse de territórios coloniais, ao passo que a 2ª Guerra foi essencialmente intra-européia. Hitler não se interessava por colônias na Ásia e na África (mesmo porque era mais fácil dominar diretamente as metrópoles, como de fato ele fez). A região cobiçada pela Alemanha era somente a do Leste europeu (sobretudo a Ucrânia), onde se encontravam os minérios de que o país necessitava para alimentar sua potente indústria siderúrgica. Mussolini, que, aliás, foi mais um instrumento do que um aliado, ainda tinha na cabeça uma idéia antiquada de guerra colonial ao velho estilo, e nunca atinou bem com a novidade da situação, mas Hitler inventou um novo tipo de imperialismo, mais "científico" e calculado. Não foi à toa, afinal, que ele recebeu, através de seu companheiro Hess, as lições de um dos principais fundadores da geopolítica, o Coronel Karl Haushofer, figura de gênio sinistro e misterioso.
O novo tipo de guerra também tinha de ser rápido, porque a Alemanha precisava vencer a corrida contra o tempo e deter a expansão industrial dos adversários. Por isso Hitler inventou o conceito de guerra total, que envolvia toda a população civil no esforço militar e dispensava, no campo de batalha, a obediência às velhas regras da ética militar. Esta foi uma das causas de sua derrota, porque os russos revidaram na mesma linguagem. Na batalha de Stalingrado, por exemplo, romperam a velha regra que mandava um exército render-se tão logo cercado: após a "vitória técnica" obtida pelos alemães, os russos continuaram combatendo até a vitória final. A resistência russa foi decisiva para a derrota de Hitler: nada menos de 70 por cento dos efetivos alemães combatiam na frente russa, e foi lá que o novo estilo de guerra, levado às últimas conseqüências, se voltou contra seu inventor.

O EFEITO CONTRÁRIO
Sepultado o Reich, a História seguiu seu curso:
1. O Império Britânico poderia ter saído ileso num mundo dominado por Hitler (certamente esta consideração pesou muito na demora dos ingleses em mexer-se contra o invasor da Polônia e da França), mas saiu estilhaçado da guerra e não pôde sobreviver no novo mundo criado pela divisão de poder entre URSS e EUA. Exatamente como Hitler havia previsto.
2. A União Soviética, que Hitler pretendia subjugar inteiramente, acabou sendo a grande vencedora da 2." Guerra, pois não só estendeu consideravelmente seus territórios como conseguiu, com a vitória, disseminar por toda parte a influência da ideologia comunista.
Sem ampliação3. Os Estados Unidos consolidaram sua posição dominante na América Latina (onde até a guerra havia muitos governos simpáticos ao nazismo, e portanto potencialmente hostis aos americanos) e assentaram suas bases em muitos pontos do Extremo Oriente, que cobiçavam desde o século passado.
4. Os Estados Unidos tornaram-se a influência dominante na Europa Ocidental (doravante uma indefesa ovelhinha ao lado do urso soviético) e nas áreas coloniais antigamente pertencentes ao Império Britânico.
5. Com a queda do Império Britânico e o enfraquecimento das demais potências coloniais - que invadidas por Hitler se tornaram dependentes dos Estados Unidos, após o término da Guerra -, a quase totalidade dos territórios coloniais se transformou em nações novas independentes, algumas neutras, algumas comunistas, algumas pró-americanas.
Enfim: o resultado que Hitler obteve foi exatamente o oposto do pretendido. Na verdade o que ele fez foi despertar o urso e irritar a águia, que se juntaram e comeram o leão europeu. O projeto do Grande Império terminou por liquidar o poder da velha Europa e instaurar os EUA e a URSS como potências dominantes - do que surgiria depois uma nova disputa que veio a ser denominada "Guerra Fria".
As causas do fracasso de Hitler foram muitas e complexas. O que é seguro é que, entre elas, esteve a contradição entre europeismo e nacionalismo. O sucesso internacional de Hitler, no começo, se deveu ao caráter oportuno de seu diagnóstico quanto à situação européia, a longo prazo. Porém, a solução que ele propôs - o Reich alemão - não fez senão tentar comprimir um problema de escala européia nas dimensões estreitas do interesse nacional alemão. Não é de espantar que, nessas condições, o nacionalismo alemão tenha se radicalizado ao ponto do fanatismo e da demência racista, tornando-se tanto mais extremado e feroz quanto menos adequado ao objetivo mais geral de promover a unidade européia. Sem dúvida houve muitos outros fatores, mas este não pode ser esquecido.

Olavo de Carvalho
Consultor: Samuel S. Salinas, historiador.

O Eixo e os AliadosA guerra em classe
A guerra é a continuação da política por outros meios. A frase é do general prussiano Karl von Clausewitz
(1780-1831), considerado um dos maiores gênios militares que o mundo já produziu.
Em seu livro, Sobre a guerra - até hoje matéria obrigatória nas academias militares -, Clausewitz aconselha que o comando supremo das forças armadas durante os conflitos militares deve ficar nas mãos dos políticos, e não dos generais, já que as guerras são apenas momentos das relações políticas entre os Estados.
Essas reflexões do velho prussiano podem desagradar a alguns generais modernos, que não fazem guerras mas volta e meia querem transformar o Estado numa grande caserna. Mas são um bom fio condutor para trabalhar em classe o tema das guerras mundiais, conflitos armados contemporâneos, como os do Oriente Médio, ou ainda os grandes lances diplomáticos da atualidade, como a política de desarmamento nuclear proposta por Gorbachev e a unificação econômica da Europa.
Nas discussões sobre a 2ª Guerra Mundial, a historiadora Déa Fenelon, autora de A guerra fria (Brasiliense, coleção Tudo é História), sugere que se procurem as contradições entre o discurso nacionalista alemão e os interesses internacionais e colonialistas em jogo. O país do fuhrer realizou tardiamente sua revolução industrial e chegou atrasado às fontes de matéria-prima e aos mercados internacionais, encontrando-os já loteados entre as potências econômicas da época. Daí a importância da doutrina da "conquista do espaço vital" e o papel do Estado no desenvolvimento do capitalismo alemão. A guerra, segundo a historiadora, é o resultado de interesses contraditórios e até excludentes das diferentes burguesias nacionais, gerados pela acumulação capitalista.
Da unificação européia pretendida por Hitler até os "Estados Unidos da Europa" sonhados por Churchill (que começará a tomar forma em 1992) são mais de 50 anos de relações internacionais oscilando entre as armas (os "outros meios" referidos por Clausewitz) e as mesas de negociações. Nesse período, a divisão política do mundo mudou. Com a redivisão da Europa e a descolonização da Ásia e da África - subprodutos da 2ª Guerra -, impérios desabaram e novos países surgiram. O mapa-múndi dos atuais estrategistas da unificação européia é diferente do utilizado pelos estados-maiores das tropas do Eixo e dos Aliados.
As mudanças desse período oferecem vários pratos cheios para o trabalho em classe. O primeiro deles pode ser o levantamento dos principais fatos políticos do período e as causas das mudanças no mapa-múndi. Devem-se destacar os interesses econômicos em jogo, o momento em que a diplomacia é substituída pelas armas (e vice-versa), como também o novo alinhamento dos países. No pós-guerra, o avanço do socialismo em vários pontos do mundo gerou tensões entre os dois grandes vencedores, Estados Unidos e União Soviética, e o planeta foi dividido em "áreas de influência" das superpotências.

MUDANÇAS ECONÔMICAS
O mapa do Brasil, por exemplo, não mudou, mas sim sua economia e relações internacionais. Antes de 1940, as grandes empresas internacionais importavam matéria-prima brasileira e vendiam aqui seus produtos industrializados. Após a guerra, passaram a atuar diretamente no mercado interno. São a Ford do Brasil, a General Eletric do Brasil, Nestlé do Brasil e tantas outras empresas "do Brasil" que marcam a presença das multinacionais.
O levantamento da participação dessas empresas na economia, feito pelos alunos em supermercados, lojas de eletrodomésticos, concessionárias de automóveis, publicidade na imprensa ou revistas de indicadores econômicos (como Visão, Exame, Dados e idéias), pode ser um bom começo para estudar as mudanças econômicas no país, o conceito de imperialismo e a nova face que ele assume no pós-guerra.
Os regimes políticos O geógrafo Douglas Santos, autor do livro didático Geografia - o espaço mundial (Atual), diz que é importante perceber que, após a guerra, o imperialismo capitaneado pelo Estado cede lugar definitivamente à ação direta das empresas, cujos capitais, muitas vezes, têm origem em diferentes países. A busca do vínculo entre a expansão das multinacionais, o processo de descolonização e a internacionalização do mercado interno dos países subdesenvolvidos é fundamental para entender a lógica das relações internacionais e as contradições econômicas do Brasil.
Para trabalhar esses fatos em sala de aula os livros didáticos contribuem pouco. Podem servir para construir os quadros cronológicos do período, mas em geral têm análises superficiais das causas dos conflitos. Déa Fenelon sugere que, para traçar um quadro do cotidiano do entreguerras, se utilize a literatura - obras de Ernest Hemingway, Eugene O'Neill, Érico Veríssimo - ou o cinema de Fritz Lang. Mas até séries de televisão, como Combate, podem servir para a análise de como a guerra é "vendida" para o público.
Para os fatos mais atuais, a classe poderá montar seu próprio arquivo de recortes, reunindo e organizando por temas as notícias parciais que cotidianamente são publicadas na imprensa. Para analisar o projeto de unificação da Europa em 1992, por exemplo, é importante recolher as expectativas e os preparativos dos diferentes países da Comunidade Econômica Européia, suas resistências à proposta e também as posições dos E U A e da URSS
A perestroika e a política de desarmamento de Gorbachev também podem suscitar estimulantes discussões em classe. Um ponto central para o debate é a questão dos destinos do socialismo. Os soviéticos desistiram dele ou apenas procuram um caminho para a modernização?

do filme "Stalingrado"

VÍDEOS

67 Dias
(67 Days, 79, ING) Dir.: Zika Mitrovic. Com: Boris Buzancic, Barbara Eden, Arthur O'Connell, John Ericsson.

Adeus, Meninos (Au Revoir les Enfants, 87, FRA/ALE) Dir.: Louis Malle. Com: Gaspard Manesse, Raphael Feijto, Francine Racette, Stanislas Carre de Melberg, Philippe Morier-Genoud.

Arquitetura da Destruição (Architecture of Doom, The, 94, ALE) Dir.: Peter Cohen. Documentário.

Cidade Sem Passado, Uma (Schreckliche Mädchen, Das, 89, ALE) Dir.: Michael Verhoeven. Com: Lena Stolze, Monika Baungarter, Michael Carr, Fred Stillkraut, Elisabeth Bertram, Michael Guillaume.

Dia de Outubro, Um (Day in October, A, 90, DIN) Dir.: Kenneth Madsen. Com: D.B. Sweeney, Kelly Wolf, Daniel Benzali, Tovah Feldshuh, Ole Lemmeke.

Eleni (idem, 85, EUA) Dir.: Peter Yates. Com: Kate Nelligan, John Malkovich, Linda Hunt, Glenne Headly.

Filhos da Guerra (Europa, Europa, 91, ALE/FRA) Dir.: Agnieszka Holland. Com: Marco Hofschneider, Juliu Delpy, Andre Wilms, Ashley Wanninger, Hanns Zischler, René Hofschneider, Piotr Kozlowski.

Libertação 8 de Maio 9:00 1945 (Liberation 1945, 94, ALE) Dir.: Arnold Schwartzman. Documentário.

Lista de Schindler, A (Schindler's List, 93, EUA) Dir.: Steven Spielberg. Com: Liam Neesom, Ben Kingsley, Ralph Fiennes, Caroline Goodall, Jonathan Sagalle, Embeth Davidtz.

Noite de São Lourenço, A (Notte di San Lorenzo, La, 82, ITA) Dir.: Paolo e Vittorio Taviani. Com: Omero Antonutti, Margarita Lozano.

Roma, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta, 46, ITA) Dir.: Roberto Rosselini. Com: Aldo Fabrizi, Anna Magnani, Marcello Pagliero, Maria Michi, Nando Bruno.

Sessão Especial de Justiça (Section Speciale, 74, FRA) Dir.: Costa-Gavras. Com: Louis Seigner, Michael Lonsdale, Ivo Garrini, François Maistre, Jacques Spiesser, Henri Serre, Heinz Bennent, Hans Richter.

Stalingrado (Stalingrad, 92, ALE) Dir.: Joseph Vilsmaier. Com: Dominique Horwitz, Thomas Kretschmann, Jochen Nickel, Sebastian Rudolph, Dana Vavrova.

Vá e Veja (Idi i Smotrí, 84, URS) Dir.: Elem Klimov. Com: Alexey Krávchenko, Olga Mirónova.

Rádio Auriverde (91) Dir. Sylvio Back. Documentário sobre o Brasil na II Guerra.

LIVROS

Berlim no Tempo de Hitler
, Jean Marabini. Cia. das Letras, 1989 (Col. A Vida Cotidiana)

Eichmann em Jerusalém: Um Relato Sobre a Banalidade do Mal,
Hanna Arendt. Diagrama&Texto, 1983

Nazismo: O Triunfo da Vontadel, Alcir Lenharo. Ática (Série Princípios)

A Segunda Guerra Mundial, Marco Chiaretti. Ática (Série História em Movimento)

A Segunda Guerra Mundial: O Planeta em Chamas,
Jayme Brener. Ática (Série
Retrospectiva do Século XX)

TEXTOS

O Sentido Histórico da Segunda Guerra Mundial de Osvaldo Coggiola


Fonte: Clio História